Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

Minha foto
Nome:
Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

18.10.16

A CONTADORA DE HISTÓRIA E O CANARINHO CINZENTO


Por
Dalinha Catunda
1
Nos tempos de antigamente
Em calçadas e quintais
O povo se reunia
E tinha seus rituais
A contação de história
Inda trago na memória
Nestes tempos atuais.
2
Lá no meu interior
Ipueiras, terra minha
Era tia Isa Catunda 
A doce Fada Madrinha
Difundindo a tradição
Na varinha de condão
Mais de mil histórias tinha!
3
Lendas, fábulas e contos,
Havia em seu repertório
Sentadinha na calçada
Conquistou seu auditório
Pra criançada a titia
Trazia muito alegria
Seu encanto era notório.
4
Tudo era emocionante
Naquele reino encantado
Mas nem sempre era exultante
O que ali era contado
Guardei na minha lembrança
O que ouvi em criança
Pra sempre ficou guardado.
5
Do meu baú de lembranças
Eu vou tirar pra vocês
Com permissão de titia
Que herdeira dela me fez
Longe de sua presença
Porém com sua licença
Assumo o: ERA UMA VEZ...
6
Era uma vez a história
Que ouvi numa canção,
A minha Tia cantava,
E eu cheia de emoção
Ouvia a triste cantiga
Uma balada antiga
Que corria no sertão.
7
E mesmo não sendo alegre
Eu posso aqui afirmar
Que esse canto magoado
É cantiga de ninar.
É um velho acalanto
Melancólico, entretanto
No seu jeito de embalar.
8
O que titia cantou
Ao meu modo vou contar
A história d’um canário
Que gostava de cantar
Era um canário da terra
Cantava em cima da serra 
Chegava até a dobrar.
9
Ali nas mediações
Vivia dona Chiquinha
Que escutava o canário
Quando era de tardinha
E um dia resolveu:
Que ele seria seu
Pra não ficar tão sozinha.
10
Uma gaiola comprou
E munida de alçapão
Não demorou muito tempo
Tinha o pássaro na mão
Tão contente ela ficou
Que de fato nem notou
Que gaiola era prisão.
11
O canário na gaiola
Sonhava com liberdade
Não comia, nem bebia,
Da serra tinha saudade
Sentindo-se descontente
Depressa ficou doente
Era essa a realidade.
12
Dona Chiquinha aflita
Com aquela situação
Mandou chamar o Doutor
Que veio na ocasião
Depois da consulta feita
Ele passou a receita
Nela um monte injeção.
13
O pobre do passarinho
No tratamento sofreu
Depois de tanta injeção
De repente estremeceu
Foi bem triste aquele dia
Ele deu uma agonia
Abriu o bico e morreu.
14
Dona Chiquinha Chorava
Era grande a comoção
Falava pro canarinho
Em tom de lamentação
Que se pudesse abriria
E com muito gosto faria
A cova em seu coração.
15
Já que não tinha mais jeito
Foi cuidar do funeral
Queria que aquele enterro
Fosse um ato especial
Embora muito abatida
Sonhava na despedida
Com pomposo ritual.
16
Fez ate um caixãozinho
Que de azul foi recoberto
E forrado de cetim
Bem pequenino por certo
Só pra pôr o passarinho
Que a morte tirou do ninho
E de flores foi coberto.
17
Quem pensa que essa história
Não podia piorar
Se enganou redondamente,
É um conto de amargar
Na verdade é um lamento
E cheio de sofrimento
Confesso me dói contar.
18
Entretanto a minha Tia,
Resolveu não abrir mão
De embalar os sobrinhos
Cantando a triste canção
Mamãe com ela ralhava
Mas ela continuava
Mesmo levando carão.
19
Retornando ao canarinho
Pássaro de pouca sorte
Que acabou na gaiola
E preso chegou à morte
Vou continuar o conto
Assim aumentar um ponto
Porém ser perder o norte.
20
Começou a despedida
Começou a choradeira
Dona Chiquinha queria
Subir da serra a ladeira
Para o canário enterrar
Naquele mesmo lugar
Que cantou a vida inteira.
21
Mas uma chuva medonha
Chegou e com ventania
Dona Chiquinha chorava,
Rezava e se maldizia
O pássaro no caixão
Sem saber da confusão
Esticadinho jazia.
22
Naquele vai e não vai
Dona Chica impaciente
Deixou a caixão na mesa
Relampejou de repente
E mudando todo plano
Chegou por lá um bichano
Tascou “canarim” no dente.
23
Essa história retratada
Não é minha invenção.
Eu estou só repassando
E dando a minha versão
Para uma velha cantiga
Canção de ninar antiga
Fruto da recordação. 
24
Quero agradecer a musa
E a minha tia também
Ela me contava história
Contava como ninguém
Eu guardei o seu legado
Guardei com todo cuidado
Pra poder levar além.
*
Fim
 

Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa, Escritora e Cordelista. Nascida e criada em Ipueiras-CE, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É co-gestora convidada do blog Suaveolens, além de ter blog próprio: (cantinhodadalinha.blogspot).

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

Links para esta postagem:

Criar um link

<< Página inicial