Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

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Nome:
Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

29.4.07

DICAS DA TEREZA



Por
Tereza Mourão
Co-gestora

Amigos!
Tenho sempre o prazer de indicar a vocês sites, blogs e matérias interessantes como uma que descobri em um site da Assessoria de Comunicação Social da UnB sobre a planta erva cidreira, http://www.unb.br/acs/bcopauta/agronomia3.htm e na qual o gestor deste blog está envolvido. Os amigos e conterrâneos também poderão acessar o site http://www.ipueiras.com/ e se cadastrar por lá, bem como visitar o blog do site http://www.grupos.com.br/blog/ipueiras. Aproveito também para comunicar a vocês que a nossa ilustre poetisa e ipueirense da gema Dalinha Catunda, criou na internet um cantinho maravilhoso onde vocês poderão se deliciar lendo os seus poemas, cordéis, crônicas e tudo de bom que esta conterrânea querida sabe fazer. É só acessar o blog http://www.cantinhodadalinha.blogspot.com/ e se quiserem prestigiá-la deixem seus comentários nas matérias que ela posta.
E para relembrar o nosso poeta maior, indico este site de Guignard, onde tem um depoimento muito interessante de Gerardo Mello Mourão, vale a pena conferir:
http://www.artenarede.com.br/guignard/verpincelada.asp?codigo=86, neste site vcs poderão ler a íntegra deste depoimento.
Forte abraço, boa leitura e até breve

DOS SONHOS À REALIDADE


Por
Dalinha Catunda


Desde criança os contos de fadas povoaram a imaginação de Luara. Cresceu sonhando com príncipe encantado, sapatinho de cristal, despertar com beijos, carruagem encantada, três dias e três noites de festa e um, “felizes para sempre”.

Bonita, sensual, nunca precisou perguntar ao espelho se haveria alguém mais bela do que ela. Segura de si, bem cotada no rol das moças casadoiras, príncipe, não lhe faltava. Mas... tinha um porém, encantado!

Escolheu, escolheu, beijou, beijou, sem nunca encontrar a magia dos contos de fadas. Chegou até a pensar em beijar um sapo, mas seu asco pelo batráquio não lhe permitiria tamanho sacrifício, ainda mais sem garantia de metamorfose.

Para Luara príncipe encantado não fazia cocô, não fazia xixi, não roncava, nem soltava pum. Certa vez, um simples pum escapulido, foi motivo suficiente para acabar um relacionamento já bem encaminhado.

O tempo corria e Luara chegou à conclusão que sapo só vira príncipe realmente em contos de fada.

Sem querer ficar para titia, moça velha ou no caritó, como se dizia antigamente, resolveu esquecer as maravilhas que poderia lhe proporcionar uma varinha de condão, como ouvir sinos imaginários e ver estrelas inexistentes, escolheu o melhor entre seus pretendentes e casou.

No passado ficaram as ilusões e fantasias. Decidida, viveria da melhor maneira possível o que a realidade lhe oferecia.

Desceu das nuvens, onde construiu seus castelos, esqueceu as mil e uma possibilidades de prazer proporcionadas por uma varinha mágica e pisou firme no chão no intuito de escrever uma nova história onde a maturidade e a sabedoria teriam papéis importantíssimos em sua vida, como o matrimônio, a procriação e os desígnios de Deus.

Se nunca chegou a ser, nenhuma Cinderela ou princesa, também não vive voando em vassouras, nem se sente uma Moura Torta. Outro dia até se espantou, pois a chamaram: RAINHA DO LAR!!!!!!
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Foto Princesa: www.bazarvirtual.pt
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Maria de Lourdes Aragão Catunda – POETISA, ESCRITORA E CORDELISTA. Nascida e criada em Ipueiras-CE, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É co-gestora convidada do blog Suaveolens.

26.4.07

QUANDO NOVEMBRO CHEGAR

Por
Jean Kleber Mattos


Em novembro de 2004, atendendo a um apelo de meus colegas de faculdade, concordei em ser o Coordenador de Pós-graduação da unidade, por dois anos.

O coordenador é responsável pelo conceito do curso. Ele zela pela produção intelectual do grupo, pela excelência das bancas examinadoras, pelo equilíbrio do número de orientandos por orientador, pela coerência e ajuste das linhas de pesquisa.

É ele quem faz o relatório anual do curso, um tal complexo, detalhado e trabalhoso chamado COLETA, e do qual dependerá o conceito do curso. Ele faz um treinamento específico antes de operar o tal programa, tão complexo ele é. Dois meses para preencher.

Não bastasse tudo isso, administra recursos financeiros, os quais tem de repartir sabiamente com as áreas de pesquisa do programa.

A execução de todas essas atribuições não se dá sem que suscetibilidades sejam feridas. Há portanto, que administrar desavenças, desajustes, demanda de privilégios e a já conhecida dificuldade com os recursos humanos de apoio, raramente habilitados.

Senti-me, enfim, como o síndico de condomínio que tem duas alegrias na vida. Uma no dia da eleição e outra quando entrega o cargo. O resto é dureza. Nem férias integrais eu tinha mais.

Dois anos decorridos, já em novembro de 2006, findou meu mandato e eu entreguei, alegremente, o cargo. Alguns colegas pediram-me para encarar um novo mandato. Neguei-me. Estava exausto. Em comemoração, dediquei-lhes, em agradecimento pelo apoio, os seguintes versos:

Quando novembro chegar
Vou agradecer ao Senhor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador!

Vou passear com meu cão
Brincalhão e corredor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

O Céu vai abrir a porta
Do inferno, nem o vapor!
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Vou cuidar de minha vida!
Que se encherá de cor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Vou voltar a ter saúde
Dar adeus ao meu terror
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Vou me livrar da loucura
Vou deixar este setor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Se eu matasse um leão
A CAPES outro ia por
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Adeus Cadastro Discente
Adeus COLETA, que horror !
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Aposentado não serve
Serei apenas professor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Graduação é bacana
Se levada com amor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Vou voltar a ter minhas férias
Como um bom trabalhador
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador

Jamais me peçam que volte
Arreneguei do labor
Meu nome será Jean
E não mais Coordenador !
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Foto: Blog Ipueiras do www.grupos.com.br
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Jean Kleber de Abreu Mattos, cearense, nascido em Fortaleza, viveu em Ipueiras dos dois aos oito anos de idade. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco. Atualmente é professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

25.4.07

MANDACARU


Por
Dalinha Catunda

Dizem que mandacaru não dá sombra nem encosto o que indiscutivelmente é uma verdade. Mas, há de se dizer que, para uma planta do porte do mandacaru, sombra e encosto passam a ser irrelevantes diante de seu significado maior para o nordestino.

Certa vez, em tempos de chuvas escassas, presenciei um vaqueiro que atendia pelo nome de Antonio Canapum, sapecando numa fogueira pedaços de mandacaru para queimar os espinhos com finalidade de alimentar o gado. Achei muito interessante e providencial.

Depois de certo tempo aprofundando-me no assunto descobri que o mandacaru é uma ótima forragem nativa e uma boa alternativa na alimentação do gado e outros animais nos tempos de seca.

Sendo uma planta nativa que resiste a longos períodos de estiagem por acumular água em seu caule, e por isso, muito procurada, aos poucos vai sumindo do sertão. Mas o sertanejo seguindo as dicas de pesquisadores da Embrapa pode plantar o mandacaru, tê-lo com abundancia, e não é uma tarefa difícil: “Basta ter uma planta mãe, cortar os pedaços dos galhos, deixar secar de um dia para o outro, e enterrar apenas uma parte no solo”.

Se o mandacaru não tivesse nenhuma serventia, mesmo assim, seria um colírio aos olhos do Nordestino. Sua beleza incomparável atrai os olhares mais exigentes, flores lindas, frutos de um vermelho deslumbrante tudo isso agarrado a um verde mais belo ainda.

Porém, mais do que um planta o mandacaru é um monumento que se ergue naturalmente em homenagem ao Nordestino que carrega com a mesma altivez seus espinhos e suas esperanças. É a beleza rústica que desafiando a seca, aparece por entre galhos secos e retorcidos no meio de pedras, confirmando no seu verde nossa esperança e no vermelho do fruto, a paixão do nordestino pela sua terra.
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Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa e escritora. Nascida e criada em Ipueiras-CE, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É co-gestora convidada do blog Suaveolens.

O ASTUTO CIRURGIÃO



Por
Luiz Alpiano Viana


Leonel era um ipueirense que morava no Vamos Ver, à margem da linha férrea, quase no Vidéu. Conheci-o ainda novo e casado. Tinha uma família de vários filhos adolescentes e adultos. Trabalhador e incansável lutador pelo pão nosso de cada dia, não era diferente dos demais donos de casa. Vivia de pequenos negócios, comprando e revendendo o que chegasse ao seu alcance: como relógio, espingarda, cavalo, jumento, cela de montaria, bicicleta e outros. Logo cedo, a fama de bom vendedor e comprador espalhou-se entre amigos e conhecidos de sua área de atuação. Por causa disso não demorou a ser procurado pelos ciganos que periodicamente acampavam nos arredores da cidade. O chefe da turma conheceu-o num sábado, dia consagrado à compra e à venda de mercadoria, principalmente alimentos vindos da zona rural. A amizade se enraizou tão bem que ele cedeu parte de sua pequena propriedade para acampamento dos nômades, conhecidos por todos como ciganos. Os ciganos tinham muito respeito por ele e o obedeciam como grande chefe e amigo.

Finalmente tornou-se rotina aquele vai-e-vem periódico de cigano no bairro do Vamos Ver. A maioria dos moradores não aprovava a permanência deles na cidade, por causa de pequenos roubos que lhes eram atribuídos.

Experiente em negócio das mais variadas espécies, preparou Leonel um presente de grego para seus hóspedes. Adquiriu ele, não se sabe onde, um cavalo com todas as características do gosto dos ciganos, mas era bicó. Passou meses tratando o cavalo, engordou-o, ficou uma beleza! O problema que lhe tirava o sono, e quase sem solução, estava no rabo do animal. Cigano não compra animal sem rabo. Ele conhecia isso muito bem, pois vivia no meio deles há muito tempo. Não era possível vender aquele cavalo aos ciganos.

Sabe-se mesmo que todo problema tem solução! Ao descobrir que o trem tinha pegado um cavalo para os lados do Vidéu, foi às pressas ao local e antes que os urubus chegassem, colheu a calda e a preparou para um pequeno implante. Depois de algum tempo cuidando do rabo do cavalo morto, o astuto cirurgião concluiu a operação. Implantou uma calda nova no cavalo suro e o manteve num estábulo especial, tratando-o com biscoito e água fria, à espera de um comprador.

Não demorou muito a turma de cigano acampa mais uma vez na propriedade de seu cicerone. Mais ou menos duzentas pessoas entre homens, mulheres, crianças, e muitos animais: cavalos, éguas, jumentos, cães e gatos. No dia seguinte, sábado, muito cedo, a ciganada dirige-se à feira, com o intuito de novos negócios, porque é disso que vivem e sempre com má fé. Leonel e sua peça rara chegaram mais cedo ao local feireiro. Aparentemente desinteressado ele desfila montado num majestoso cavalo que chama a atenção dos apaixonados por eqüino. Parecia até aqueles cavalos de biga. Logo os chefes da aldeia o cercam e o atubibam para negociá-lo. Ficam encantados; na troca oferecem relógios, revólveres, aparelhos de som e quantia certa em dinheiro, e até outro animal. O maquiavélico negociante reluta, dá um tempo, afasta-se um pouco dos ciganos e espera melhores propostas. Eles não desistem e o seguem. Finalmente aceita de última hora nova proposta e fecha negócio.

Sol a pino e sufocante, a feira começa a se esvaziar e todos tomam o caminho de volta para suas casas. Quem fez bons negócios, está feliz e quem fez mal, só lamenta. Os ciganos estão satisfeitos porque foram bem sucedidos e no meio de tantos negócios, compraram um lindo cavalo! Ao chegarem às barracas mostram-no aos companheiros. Cada um demonstra satisfação na compra. Montam-no, troteiam, puxam-no em círculo pelo cabresto. Arregaçam a boca do animal para ver os dentes, por fim usam todos os truques que conhecem para descobrirem defeito e não encontram nada.

Um ciganinho peralta, desnudo e sem maldade sai de uma das tendas, corre para montar a mais nova aquisição do pai. Eles, os pequenos ciganos, costumam montar, pisando no calcanhar do animal, e, apoiando-se na calda, dão um impulso e caem certeiros e estrategicamente na montaria, como fazem os índios guerreiros. Uma surpresa desagradabilíssima deixa-os atônitos. A calda, que levou horas numa meticulosa operação cirúrgica a Zerbini, descolou-se e o ciganinho foi ao chão. Todos correram para ver o que tinha realmente acontecido. Sem dúvida nenhuma Leonel os tinha enganado! Não acreditavam no que viam. Ele não pode ter feito isso, confabulou um dos comandantes em chefe. Vamos lá conversar com ele, disse outro.

Seguiram-no, uns a pé e outros a cavalo, por um pequeno trecho de caminho que dava até a casa do mestre do engodo. Leonel ao avistá-los e sabendo o que tinha aprontado, arribou rápido numa égua que pastava no terreiro de casa. Assustado, ele cutucava de espora impiedosamente o vazio da besta. Em alta velocidade, olhava constantemente por sobre os ombros e batia forte, muito forte mesmo, o chicote. Os ciganos gritavam: Leonel... Leonel... Leonel... Nós não queremos desmanchar o negócio! Só queremos que nos ensine a botar rabo em cavalo!

Os ciganos ainda hoje comentam a forma como foram enganados. Não se conformam. Leonel também não ensinou para ninguém o truque de como botar rabo em cavalo cotó!
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Luiz Alpiano Viana, nascido e criado em Ipueiras, morou mais tarde em Crateús. Atualmente é funcionário aposentado do Banco do Brasil e mora da cidade de Sobradinho, no Distrito Federal.

20.4.07

MIMOSA PUDICA



Por
Dalinha Catunda

Dizes que sou melindrosa,
Que esmaeço se tocas em mim,
Por que não procuras outras plantas,
Menos sensitivas nesse jardim.

Me chamas de erva daninha,
Dormideira ou coisa assim,
Não passas de um carrapicho,
Querendo grudar em mim.

Sim, sou cheia de não-me-toques.
Tenho flores e muitos espinhos,
Mas sou o encanto das trilhas,
Ornamento de caminhos.

Mimosa pudica para os sábios,
Dormideira para muitos,
Malícia apenas sou,
Pra quem gosta do assunto.

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Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa e escritora. Nascida e criada em Ipueiras-CE, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É co-gestora convidada do blog Suaveolens.

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Foto: www.plantasdaninhasonline.com.br/pd

16.4.07

A REPÚBLICA DE D. MARIETA


Por
Jean Kleber

Ano de 1966. Eu seguia estudando em Recife e morava com alguns colegas em um aposento alugado. O lugar chamava-se República de D. Marieta. Ficava numa rua próxima à praça Maciel Pinheiro. Era uma rua estreita ao lado da Igreja da Boa Vista. Ficávamos no primeiro andar do prédio. Havia ainda mais dois ou três pavimentos ocupados por famílias cujos filhos da mesma nossa idade, eram nossos amigos. Não raros surgiam namoros entre jovens integrantes da república e as belas jovens da vizinhança.

O elenco da pensão era composto por jovens colegiais e executivos de classe média, em geral oriundos do interior de Pernambuco. Lembro-me bem, vários deles eram de Ouricurí. A valentia, o estoicismo, os freqüentes excessos alcoólicos nas festas e bailes, velhos conceitos sobre honra e lealdade eram os traços mais comuns do perfil da clientela. A comida era boa. Fazíamos lá mesmo nossas refeições. Eu comia à farta. Estava no céu...

Observando meus companheiros de república e analisando as suas narrativas épicas, eu estava certo de que Shakespeare poderia reeditar cem vezes Romeu e Julieta com jovens personagens brasileiros do nordeste. A famosa disputa entre os Montecchio e os Capuleto era por vezes revivida em muitas cidades do interior nordestino. Peixeiras e punhais em lugar de florins. Não levar desaforo para casa, não tolerar a mínima palavra ofensiva à própria mãe, tudo era motivo para iniciar-se uma briga, fosse nos bailes ou em algum intervalo de aulas na escola. Emergiam, contudo, em meio a tal atmosfera belicosa, sentimentos de divina inspiração, de modo aparentemente contraditório: lealdade, honestidade, solidariedade e sobretudo a valorização do trabalho.

D. Marieta era uma figura inesquecível. Negra, gorda e espiritualista, criava com extremo carinho uma menina adotada. Tinha uma personalidade forte, mas seus modos eram refinados. Conheci D. Marieta por intermédio de dois amigos. Um deles, o Luís, havia sido um ano antes meu companheiro de aposento, além do Tito de Alencar, na Casa dos Permanentes, um pensionato de Ação Católica que existia na Rua dos Coelhos, ao lado do Hospital Pedro II. Continuávamos companheiros de aposento, desta vez com mais dois integrantes, na casa de D. Marieta.

Uma noite, ao regressar da rua, não encontrei D. Marieta na sala de TV que lhe servia de quarto, nem sua auxiliar, a Carminha. Soube mais tarde que, naquela ocasião, elas estavam num Centro Espírita. No dia seguinte ao cumprimentá-la, D. Marieta comentou:
-Ontem à noite, senti muito sua falta, “seu” Kleber!
Diante de minha surpresa, esclareceu que na véspera, no centro espírita, havia “baixado” um espírito falando inglês.
-Pedi que chamassem o senhor mas o senhor não estava. Ainda acho que o senhor tinha como traduzir a fala daquele espírito!

Certo dia, um dos colegas teve a idéia de fazer um “pavê”. Aquele doce feito com biscoitos “champagne”, leite condensado e creme de leite. Todos comeram à farta. Pra mim o resultado foi um “baita” disenteria. Naqueles dias eu estava participando de um curso de extensão universitária em Biblioteconomia, na Universidade Rural de Pernambuco. Foi terrível. Os intervalos das aulas eu os passava no banheiro. Não havia remédio que parasse o fluxo.

Quando regressei à pensão pela noite, abatido, Luís comunicou o fato a D. Marieta. Depois de reclamar por ser “a última a saber”, disse que tinha a solução. Coletou na vizinhança folhas maduras de mamoeiro e fez um chá. Uma infusão. Aconselhou-me a beber uma chávena. A partir daquele momento não voltei ao banheiro por dois dias. Meu fascínio pela fitoterapia deve ter começado ali.
Grande D. Marieta!
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Jean Kleber de Abreu Mattos, cearense, nascido em Fortaleza, viveu em Ipueiras dos dois aos oito anos de idade. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco. Atualmente é professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

ROSA APAVORADA


Por

Dalinha Catunda



Foi lá pelo Pai Mané,
Que esse caso se deu.
Valdenira me contou
Como tudo aconteceu.
De boca em boca esse caso,
Por muito tempo correu.

Assim ela me contou
E assim vou lhes contar,
A história de uma rosa,
Em pleno desabrochar,
Que obedecendo a seu pai,
Foi obrigada a casar.

Rosa menina moça,
Ainda flor em botão,
Não havia despertado
Pras coisas do coração.
Não entendia de amor,
Muito menos de paixão.

Seu pai, velho vivido,
Começou a matutar:
Rosa ta bem taluda,
É hora de se casar.
Sem perca de tempo vou,
Um genrinho procurar.

Pois era assim que se dava,
Pras bandas do meu sertão.
O noivo, o pai arranjava,
A noiva querendo ou não.
Empenhado saiu o velho,
Pra cumprir sua missão.

Pensou em filhos de compadres,
De parentes e de amigos.
Encilhou o seu cavalo,
Foi a cata de um marido,
E só sossegou o facho,
Quando fez o prometido.

Rosa foi informada,
Pelo seu pai protetor,
Que lhe arranjara um marido,
E submissa aceitou.
É assim que o senhor quer,
Eu aceito sim senhor.

Começaram a trabalhar
No pequeno enxoval.
Não demorou muito tempo,
Estava pronto afinal.
Pra ser enxoval de pobre,
Até que não estava mal.

Vestido de noiva pronto,
O foguetório comprado,
E o dia do casamento,
Devidamente marcado.
O povo da vizinhança,
Tava todo convidado.

Só que Rosa coitadinha,
Não tinha tido o prazer,
De conhecer o rapaz,
Que com ela ia viver.
Só restava à pobre Rosa,
Na verdade obedecer.

Não sei se pra sua alegria,
Não sei se pro seu tormento,
Só conheceu o sujeito
No dia do casamento.
Entre vivas e aplausos
Fizeram o juramento.

Foi casamento no padre,
Casamento no juiz.
Juntou família e amigos,
E todo mundo feliz.
Comida tinha pra todos,
Não se fartou quem não quis.

Depois do: viva os noivos,
Dos foguetes e cantoria,
O povo voltou pra casa,
E o noivo era só alegria.
Pois sabia o que lhe esperava,
Só Rosinha não sabia.

Rosa botou uma camisola,
Inocente pra dormir.
Nem desconfiava mesmo,
Do que estava por vir.
E até mesmo por isso,
Esperava o noivo a sorrir.

De repente apareceu,
Para sua assombração,
O já marido pelado,
Com os documentos na mão
Rosa desesperada,
Ganhou a escuridão.

Ela correu feito louca,
Pegou o caminho do mato,
Não teve cristão no mundo
Que descobrisse seu rastro.
E o pobre marido acuado,
Virou jumento sem pasto.

Chegou à casa da mãe,
No outro dia bem cedo.
A velha vendo a esparrela,
Lhe disse não tenha medo.
Eu esqueci de lhe contar,
Desta história o enredo.

Assim se deu com você,
Comigo, não foi diferente,
Depois que o negócio encaixa,
Até que faz bem a gente,
Além de deixar o marido,
Bem feliz e bem contente.

Rosa bem mais animada,
Rumou pra sua festança,
Depois de ouvir de quem sabe,
Como se faz uma criança.
Na casa de Rosa agora,
A rede veia não cansa.

A chave do seu marido,
Deu certo em sua fechadura,
Rosa mulher parideira
Teve filhos com fartura.
E via no esposo arranjado,
A melhor das criaturas.

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Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa e escritora. Nascida e criada em Ipueiras-CE. Conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É co-gestora convidada do blog Suaveolens.

UM BOTÃO PARA UMA ROSA.



Por

Luiz Alpiano Viana



Acompanhei seus passos suaves, majestosos e delicadamente femininos, desde sua chegada à floricultura. Ela olhava um buquê e alinhava as pétalas carinhosamente, demonstrando profundo conhecimento do assunto. As mulheres sabem, evidentemente, que as rosas foram feitas exclusivamente para elas. Rosa não tem perfume, dizem, mas sentimos vontade de cheirá-las. Eu acho que rosa e flor são a mesma cosia, sempre muito belas, perfumadas e divinas como as mulheres. Foi Deus que as fez assim, como, tudo que existe sobre a terra. Se a rosa é flor das flores, a mulher é a estrela do céu dos homens!

Não me cansava de observar que cada mulher que entrava na floricultura, dela saía com um ar de pureza, olhos brilhantes e lábios umedecidos de sensualidade. Somente elas, e mais ninguém no mundo, têm um jeito todo especial de lidar com as flores. O homem inteligente não se arrisca em contrariar uma mulher no que ela gosta de fazer. Se o fizer, certamente corre o risco de não mais ter sua amizade. Eu mesmo não quero que isso me aconteça. Não, não quero!

No teto do prédio da floricultura viam-se desenhos que não tinham nada a ver com o produto ali comercializado: como fotografias de elefante, jaguatirica, tartaruga, pato selvagem... Bem, acho que aquela sala era usada para outra finalidade, como secretaria de meio ambiente, por exemplo.

De repente nossos olhares se cruzaram! - Por que a mulher ao perceber que está sendo observanda pelo homem, dá uma "arrumadinha" no cabelo? Ela ajeitava os cabelos como se estivesse diante de um espelho. São simplesmente encantadores seus gestos. O homem não perde nenhuma oportunidade de observá-los, mesmo que esteja acompanhado da mais linda criatura do sexo feminino. Para mim tudo que elas fazem tem um pedacinho do céu. Sua feminilidade enlouquece qualquer um, principalmente os que gostam realmente de mulher.

Seu vestido de linho e suas botas de cano longo davam-lhe um toque genuinamente clássico. Eu não tinha costume de vê-la em tão apurados trajes. Minha sensibilidade estava mais para o romantismo. Colhi de um jarro um botão vermelho, e pus-me de espreita e tocaia, esperando o momento exato para lho ofertar.

Um minuto se passava como um século. Ela não sabia que alguém a esperava num canto da floricultura. Não me estava sentindo bem, dado que um só homem no meio de tantas mulheres despertava sua aguçada curiosidade. Elas são muito inteligentes e observadoras natas. Bem dito sóis vós sozinho entre as mulheres... Penso que, pelo menos uma delas no meio de tantas que por ali circulavam, fazia essa oração.

Fiquei sem graça ao perceber que me viam com uma rosa na mão. A diva encantadora por quem tanto eu esperava, rodara todo o salão, e nas mãos trazia um pequeno ornato de rosas amarelas e roxas. E a rosa que eu lhe tinha escolhido era vermelha! Que tristeza! Tentei trocá-la e não deu tempo. Quando ela se aproximou eu lha entreguei. Ela sorriu e corou! Beijou-a tão delicadamente que eu tremia como se me desintegrasse no tempo e no espaço. Senti que suas mãos eram macias e perfumadas e ao tocarem as minhas, também tremeu, mas soube se conter.

Disse-me:
- Obrigada, muito obrigada! - pediu-me licença e saiu inteligentemente.

Por que foge de mim, por que me esquiva, pensei. Elas são hábeis fugitivas do que não lhes interessa. Está provado que elas têm um senso criativo inigualável. Por isso as admiro e quero continuar por elas apaixonado. Depois desse dia com ela nunca mais me encontrei. Dela não me esqueci. Só sei que hoje é casada, mãe dedicada, e um ser humano do mais alto nível.

O amor é lindo! Amar pode ser tudo isso que sinto. Só ama quem sabe distinguir os segredos do amor. Pode-se amar tudo nesse mundo, mas para amar de verdade um coração, tem que ter coração!

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Luiz Alpiano Viana, nascido e criado em Ipueiras, morou mais tarde em Crateús. Atualmente é funcionário aposentado do Banco do Brasil e mora da cidade de Sobradinho, no Distrito Federal.

14.4.07

ABRIL EM IPUEIRAS

Por
Dalinha Catunda

Semana Santa, uma rápida passagem pelo Ceará, como não poderia deixar de ser, com destino a Ipueiras minha parada obrigatória.

Embora uma semana de poucas chuvas, o Ceará estava magnificamente vestido de verde, vendendo fartura e espalhando esperança. Nas feiras de Ipu e Ipueiras, tanto o feijão, como o milho verde, já davam o ar da graça, ainda caros, por ser começo de safra. Jerimum, maxixe, melancia, também se via com fartura nas feiras e conseqüentemente nas mesas.

Em Ipueiras o velho Jatobá escorria timidamente, sem forçar para carregar a sujeira que é depositada em seu leito. As grandes enchentes ainda não haviam chegado por lá. Contudo, o verde às suas margens não lhe tirava de todo o encanto. Os roçados estavam bonitos, segundo os agricultores, mesmo não sendo um inverno de grandes chuvas daria para criar os legumes.

Eu que sou encantada com a vegetação do Nordeste dediquei horas e horas à contemplação das plantas que aparecem ou rebrotam com as chuvas. O mata pasto, tomava conta dos campos, o mussambê todo florido enfeitava a paisagem, a salsa com suas ramas imensas cheia de flores orlava o açude e refletida no espelho d' água nos oferecia um espetáculo impressionante.

Chananas e jitiranas deixavam o chão florido num colorido que, dito, em nada se compara ao visto. Por diversas vezes amassei a folha do bamburral para sentir com mais intensidade aquele cheirinho gostoso. Como diz Jean Kleber: "O cheiro de nossa infância."

Durante o dia quero-quero, socó, bem-te-vi, lavandeira, campina, e até savacu campeavam em volta do açude. À noite eles davam lugar aos vaga-lumes que intermitentemente piscavam suas lanternas enquanto os sapos invadiam o ar numa cantoria sem fim.

Para não dizer que tudo estava às mil maravilhas, devo dizer que, muriçocas e potós também marcaram presença em alguns momentos dessa jornada, mas nada que comprometesse o brilho ou o sabor desse maravilhoso abril em Ipueiras, onde o canto do galo era meu despertador.

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Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa e escritora.Nascida e criada em Ipueiras-CE, Maria de Lourdes Aragão Catunda, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É co-gestora convidada do blog Suaveolens.

13.4.07

CARMINHA

Por
Jean Kleber Mattos

Carminha era seu nome. Era a auxiliar de D. Marieta, a dona de nossa pequena república de estudantes em Recife. Limpava a casa, arrumava os cômodos, fazia a comida. Silenciosa. Sorridente. Falava pouquíssimo. Baixinho. Parecia observar-nos analiticamente. Sempre fiel à tarefa de apoiar a dona-da-casa.

O trabalho honesto de qualquer pessoa sempre me comoveu. A admiração por quem segue firme no trabalho, por humilde que seja, era-me inevitável. Desde que me tive por gente foi assim. Abominando a esperteza vil, a malandragem irresponsável e perniciosa, sempre admirei a força dos que optam pelo trabalho honesto ainda que duro. Em relação à Carminha, admiração e encantamento faziam par.

A perda precoce dos dentes incisivos é bastante comum nos interioranos do Brasil, certamente em função de alguma carência mineral. Carminha não fugia à regra. Perdera-os. O sorriso era discreto, tímido. Divino.

A miscigenação no Brasil nos brinda todos os dias com um caleidoscópio racial de grande riqueza. Em Recife, cuja civilização teve a marca de diversas etnias e populações incluindo índios, negros, portugueses, franceses e holandeses, o fenômeno tem uma espetacular expressividade. Algumas pessoas têm o cabelo duro dos negros e a pele branca, sardenta, certamente herdada do europeu. Carminha era assim. Nem magra nem obesa. Era “cheinha”, um termo comumente utilizado no Nordeste, significando alguém não tão volumoso como uma “boazuda”. Algo mais próximo da gostosinha...!

Corria o ano de 1966. Ao final dele eu me formaria em agronomia. Filho de classe média apenas remediada, meus pais eram professores. Eu carregava comigo as expectativas de ascensão social da família. Fazer de Carminha minha companheira, dividir a existência com ela, era apenas um devaneio. Um saboroso devaneio. Nunca tive oportunidade de declarar-lhe minha afeição. Cumprimentava-me sempre com um sorriso, imediatamente retribuído. Nossos olhares eram plenos de cumplicidade...

Passado algum tempo de minha saída da república, quando acamado por uma enfermidade, visitou-me no novo endereço em companhia de uma colega. O mesmo silêncio. O mesmo doce sorriso. A mesma tez branca, macia. E aquelas deliciosas sardas.

Meu Deus! Eu estava apaixonado por Carminha!
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Foto: rua onde ficava a república de D. Marieta, na praça Maciel Pinheiro.
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Jean Kleber de Abreu Mattos, cearense, nascido em Fortaleza, viveu em Ipueiras dos dois aos oito anos de idade. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco. Atualmente é professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

12.4.07

SAUDADE


POR
LUIZ ALPIANO VIANA

Dizem que saudade é tudo aquilo que ficou daquilo que não restou. Mas eu acho que saudade é o registro do passado, lembrança dos tempos que não voltam mais, dos primeiros passos de vida, dos erros e dos acertos que ficaram no passado.

Em Ipueiras vivi todas as fases de minha vida: infância, adolescência e adulta. Como posso esquecer dos lugares onde nasci, onde namorei, onde peralteei, dos banhos no rio Jatobá, das pescarias com um litro branco de fundo estufado para dentro! Meu rastro está gravado em volta da estação ferroviária, na calçada do Guarani e nas salas do Colégio Estadual Otacílio Mota.

Cada ipueirense tem uma história belíssima para contar! Quem não se lembra de Dona Diana dedilhando numa clave de dó maior, energizando o ambiente nas festas de Nossa Senhora da Conceição e nas missas dominicais! Quem não se lembra também de Prêta, mulher do pipoco, dos dribles desconcertantes de Paiaz, da locução de Casca, do Zeca Bento na calçada do cartório, gritando pelo Tadeu! Ah Ipueiras, de ti nunca me esquecerei! Onde quer que esteja um filho teu, honra te prestará com disposição e orgulho. Teus filhos, netos e bisnetos, que brincam com as letras, sabem conjugar muito bem o verbo enaltecer.

Os que são cultos te dedicam livros, crônicas e poesias. E eu, o menor dos menores, ofereço-te este texto, não no estilo jornalístico e acadêmico dos que constantemente te escrevem, mas com a verdadeira correção gramatical do amor, da gratidão e da humildade. Eu também quero escrever-te poemas nem que sejam de versos monossilábicos. E quando eu os fizer não me envergonharei dos erros de gramática.

Aquele que já viu o sol nascer por traz do morro do Cristo e se aninhar na serra da Ibiapaba, tem nas veias o sangue de uma tribo que, como eu espezinhando a língua de Camões, habituou-se a escrever sobre sua cidade.

Assisti à derrubada das carnaúbas do centro da cidade. Vi Jeremias clamar para elas permanecerem de pé, mas o progresso falou mais alto e o machado impiedosamente venceu. À noite, na Rádio Vale do Jatobá, Jeremias lia uma crônica que dava por encerrada a época dos meninos que cavalgavam num talo de carnaúba. Como ele, eu também cavalguei num alazão, um ginete por todos admirado, com uma calda bem cuidada, ao estilo manga larga.

A cidade cresceu e com ela também, seus filhos. Muitos tiveram de sair em busca de melhores dias, outros ficaram, onde ainda estão até hoje. Mesmo morando distante, o ipueirense volta de vez em quando para participar da festa de Nossa Senhora da Conceição. A banda de música no patamar da igreja e a batida do sino pelo Antônio Jardilino, nas manhãs de domingo, convidando a comunidade para a Santa Missa, dá-nos um aperto no peito e a saudade faz-nos recordar memoráveis momentos, principalmente do primeiro beijo na primeira namorada.

Um homem raquítico, vestido de terno, gravata, chapéu de massa, sapatos pretos, caminha à noite, a passos lentos, na calçada da Praça Padre Angelim de frente à Igreja Matriz. Ele cantarola uma canção que eu não conhecia. Certamente uma de sucesso de sua época... Dario Catunda, meu mestre de língua portuguesa, não foge à regra, é um exemplo ímpar de cultura e de cidadania. Falar desse homem é preciso conhecê-lo bem, pois se trata de um ser humano do mais alto nível espiritual e humanitário. São coisas desse tipo das quais o povo de Ipueiras tanto se orgulha. Honro-me por ser conterrâneo de Costa Matos, Gerardo Mello Mourão, Frota Neto, Boré, Heládio, Major Sebastião, Tim Mourão e tantos outros.

Eu te amo muito, Ipueiras! Teu sol é mais frio e aconchegante, tua brisa tem cheiro de mato verde, perfume natural da serra da Ibiapaba. Teu povo, como sempre hospitaleiro e cavalheiro, tem o coração cheio de amor e paz para dar. Fica em paz sob a proteção do Cristo Redentor, e dorme tranqüila à margem do Jatobá. Tu serás para sempre, Ipueiras, minha eterna e querida namorada!

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Luiz Alpiano Viana, nascido e criado em Ipueiras, morou mais tarde em Crateús. Atualmente é funcionário aposentado do Banco do Brasil e mora da cidade de Sobradinho, no Distrito Federal.

7.4.07

AOS AMANTES DA FRUTA




Por Dalinha Catunda,



Ipueiras-Ce






É difícil falar em Jatobá sem que o pensamento faminto e cheio de saudades não me transporte imediatamente até o Ceará, e conseqüentemente a Ipueiras.
Cidade pequena, pacata, de povo acolhedor.Cenário mágico de minha infância e juventude, onde o velho Jatobá feito cobra gigante majestosamente serpenteia a cidade.
Jatobá na língua guarani significa “folha dura” ou “árvore de fruto duro”.
E hoje, esqueço um pouco o velho Jatobá para falar dessa frutinha gostosa, diferente, que também fez parte da minha meninice.
Nasci e me criei, ouvindo falar em jatobá, desfrutei do rio e comi da fruta.
Na dormência da memória, morava o jatobá que provocado eclodiu em boas lembranças.
Parece que foi ontem... eu menina, de pedra na mão, quebrando a tal fruta para comer a massa de gosto incomparável, de cor deslumbrante, amarelo fosforescente, a qual abrigava o jatobá dentro de sua casca dura e marrom. Após sujar a cara com o pozinho do jatobá, não sem antes ter me entalado por diversas vezes, era hora de brincar com os caroços que eram tão bonitos quanto as cascas e quanto a massa.
Em nome dessa álacre lembrança, munida de saudades, acessei a “wikipédia” e fiz uma pequena pesquisa que muito me agradou e certamente agradará os amantes da fruta.
Eis o obtido em relação ao Jatobá:
“Como planta medicinal, diferentes partes são usadas por indígenas do Brasil, Guianas e Peru contra diarréia, tosse, bronquite problemas de estômago e fungo nos pés.”
“Entre seringueiros e moradores de regiões próximas das florestas onde se encontram, é comum utilizarem a casca da árvore para fazer um chá, também chamado de vinhos de jatobá. Acreditam que este chá é um poderoso estimulante e fortificante”.
Pois é, amigos, Ipueiras em sua singularidade bebeu do Jatobá e, comeu o Jatobá.

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Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa e escritora. Nascida e criada em Ipueiras-CE, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É co-gestora convidada do blog Suaveolens.

1.4.07

NOTICIAS PARA O BLOG


Por: Tereza Melo Mourão
Co-gestora
Jean, sou uma curiosa de tudo de bom que existe nesta internet e minha contribuição será procurar artigos interessantes e curiosidades principalmente os que dizem respeito aos nordestinos ( ). Navegando na internet, descobri um site maravilhoso intitulado Árvores do Brasil, que é de um curioso chamado Eugênio Arantes de Melo. O site é dedicado ao estudo e identificação de árvores nativas no Brasil, especialmente da região sudoeste. Creio que irás gostar muito e se achar interessante, faça referência a ele em seu blog.