Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

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Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

30.5.07

PROCURA-SE




Por
Nilze Costa e Silva


Havia um silêncio sobre todas as palavras não ditas. Esperava muito mais abraços, um apagar de velas, um parabéns pra você entre vozes desafinadas. Ninguém falava, quase. Tardinha. Pouco mais a noite viria. O vento balançava as folhas dos mangueirais de cujos galhos pendiam lâmpadas que logo mais seriam acesas. Sob a copa da mangueira mais frondosa, estirava-se uma mesa comprida, forrada com uma toalha branca e bordada, que parecia de linho branco. Mas era de plástico, logo notei ao me aproximar melhor. O plástico tira a pureza das coisas, a beleza, a ternura. Pelo menos as flores que enfeitavam a mesa eram naturais, ajustando-se ao ambiente bucólico onde nos encontrávamos.

Contrariando o quadro, havia uma expressão sombria nos rostos das pessoas, o que poluía a beleza da tarde-quase-noite. Os rostos, sim, eram nitidamente de plástico, considerava eu naquele momento. O convite era para um festa de aniversário. Sonhara eu? Iludira-me com as palavras baixinhas ditas dentro de um cinema? Talvez nem tivesse prestando atenção. O Bebê de Rosemary me tomava olhos e ouvidos. Nunca consegui namorar apaixonado num filme do Polanski. Mas qualquer coisa me soou ao ouvido como um convite a uma festa de aniversário de um sobrinho. Sim, sim, claro. Nós iríamos. Uma dor terrível inundando a vida de Rosemary. O grito do bebê era pavoroso e demoníaco. À noite, eu sabia, iria ter pesadelos.

Dia seguinte o aniversário. Não lembra? Distraía-me sempre, vivia com a cabeça nas nuvens. Lia tanto nos livros, nas pessoas e em mim, e no entanto abstraía-me de cenas concretas, por demais terrenas. Chegamos de ônibus, mãos dadas. Conversando, gesticulando. A casa ficava num sítio, num bairro afastado. Todos os que se encontravam davam-se as mãos, cerimoniosamente e logo sentavam-se ao redor da mesa. Os convidados eram na sua maioria homens. O sítio era grande, mas a casa era pobre. As pessoas tinham um aspecto sombrio, sorriso enrugado. A fumaça dos cigarros nublava o ambiente. Todos pareciam refletir antes de falar, os homens cofiando a barba ou o bigode. Não, aquilo não seria uma festa de aniversário! Parecia mais uma missa campal!

Havia, porém o bolo simples no centro da mesa. Pratos e copos de papel ordinário eram dispostos ao longo da mesa, por uma mulher de vestido curto de algodão. Olhei para Jorge, como a pedir-lhe explicação. Afinal o convite tinha partido dele. Limitou-se a apertar-me o braço e sorrir levemente. Os homens e as poucas mulheres, entre um silêncio e outro, trocavam frases banais. Pareciam esperar o começo de algum evento.

O aniversário? Enquanto a noite caía, minhas pálpebras começavam também a despencar. Fiquei apreensiva. Como podia eu cochilar numa festa de aniversário? O certo é que comecei a bocejar. Minha curiosidade ia arrefecendo aos poucos, cedendo lugar a um sono incontrolável. Tinha tido insônia na noite anterior. Encostei a cabeça no ombro quente de Jorge e adormeci, não sei se por segundos ou minutos. Creio ter sonhado um pouco. Via-me ajoelhada numa igreja, vestida de domingo, um terço rolando entre os dedos. Nem tanto rezava. Muito mais refletia sobre os meus erros, meus pequeninos erros infantis, sem no entanto pensar em pedir perdão. Depois da missa me via correndo na rua imensa, esquecida de todas as orações e de todos os pecados do mundo.

A noite desceu de vez e as luzes já estavam todas acesas. Ninguém sabia do aniversariante. Comecei a prestar atenção na conversa. Falava-se agora com mais fluência e o calor da discussão acentuava-se gradativamente. Os oradores revezavam-se e eram contestados ou aplaudidos com um estalar de dedos. Falava-se da situação política do País, formavam-se grupos, armavam-se estratégias de lutas como forma de enfrentar o sistema de governo vigente. Senti-me um tanto alienada diante das discussões. Agora entendia o porquê do convite. Jorge era militante de uma facção clandestina e não admitia estar apaixonado por uma companheira que não fosse ativa e contestadora da situação caótica em que se encontrava o País àquela época. Por isso me convidara para aquele “aniversário”. O bolo, os pratinhos e os copos com guaraná eram só para disfarçar a reunião clandestina.

Ouvi todas as discussões. Eles tinham razão. Queriam me roubar dos meus livros, dos discos e escritos que não se comprometiam com a luta do povo. No entanto, saí da reunião triste e decepcionada com Jorge. Por que me mentira?

Voltamos em silêncio e nos perdemos numa parada de ônibus. Vi-o ainda uma vez mais e para sempre. A foto era nítida, com um número trágico a enfeitar-lhe o peito. A barba continuava cerrada e muito negra, como quando nos vimos pela última vez. Os olhos fitavam-me. Fitavam-me longa e profundamente. Uns olhos parados, inquisidores. Uns olhos secos que afogaram os meus em lágrimas. Ao redor dele, outros retratos penduravam-se no painel.

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Foto do procurado: www.babooforum.com.br

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Nilze Costa e Silva nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, tendo vindo morar no Ceará com alguns meses de idade. Graduou-se em Administração de Empresas e logo após especializou-se em Teoria da Literatura (1986), pela Universidade de Fortaleza UNIFOR). Iniciou na Literatura com o livro Viagem – Contos e Crônicas, que teve prefácio do consagrado poeta Francisco Carvalho. Sagrou-se em 1° lugar no Prêmio Estado do Ceará, com a novela no Fundo do Poço (com apresentação do contista Moreira Campos). Em 2001 fundou o grupo Poemas Violados. Promove sistematicamente a oficina de Escrita Criativa: “Palavras não são vãs”. Integra a Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA). É colaboradora do Jornal O Povo, de Fortaleza, e conselheira do Conselho de Cultura do Estado do Ceará. No cotidiano, dedica-se a questões relacionadas aos direitos humanos. Recentemente lançou o livro de sua autoria, Fortaleza Encantada.

2 Comentários:

Blogger Jean Kleber Mattos disse...

Nilze Costa e Silva estréia no Suaveolens.Uma honra postar "Procura-se", um texto da prestigiada escritora potiguar, que adotou o Ceará e escreveu "Fortaleza Encantada".

30.5.07  
Anonymous Dalinha Catunda disse...

Jean kleber,
O Blog Saveolens a cada dia que passa fica mais convidativo. Já conheço Nilze algum tempo e seus escritos certamente serão um atrativo maior para este blog.

31.5.07  

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